Essa é uma dúvida comum para quem nunca fez terapia. Existe também a expectativa de que a sessão seja um lugar onde contamos um problema e recebemos alguma orientação sobre o que fazer. Terminar ou continuar uma relação, mudar de emprego, conversar com alguém, estabelecer um limite, tomar uma decisão que vem sendo adiada.
Faz sentido imaginar a terapia dessa forma. Quando estamos diante de um problema, geralmente procuramos uma solução, e estamos acostumados a recorrer a outras pessoas quando não conseguimos encontrá-la sozinhos. Um amigo pode oferecer sua opinião, alguém da família pode contar o que faria no nosso lugar e uma pessoa que passou por algo parecido pode compartilhar sua experiência. Tudo isso pode ser útil. O trabalho de um psicólogo, porém, acontece de outra maneira.
Às vezes, saber o que fazer não resolve
Há momentos em que sequer precisamos de alguém nos dizendo qual seria a decisão mais sensata. Sabemos que precisamos descansar, que determinada relação nos faz mal, que alguma conversa precisa acontecer ou que estamos ultrapassando nossos próprios limites. Conseguimos explicar racionalmente a situação e, ainda assim, continuamos fazendo exatamente aquilo que já percebemos que nos incomoda.
É fácil transformar essa dificuldade em falta de coragem, força de vontade ou determinação. Só que entre reconhecer uma situação e conseguir vivê-la de outra maneira existe muita coisa. Uma pessoa pode saber que precisa colocar um limite e, ao mesmo tempo, ter medo de decepcionar alguém. Pode desejar sair de uma relação e ainda amar aquela pessoa. Pode reconhecer que está exausta e sentir culpa quando tenta descansar.
É justamente quando nos aproximamos dessas contradições que a conversa terapêutica começa a ganhar outra dimensão. A questão deixa de ser apenas “o que eu deveria fazer?” e passa a incluir o que torna determinada escolha tão difícil, o que está sendo vivido naquela situação e o que talvez ainda não esteja sendo percebido.
Então o psicólogo só escuta?
Escutar faz parte do trabalho, mas a escuta de um psicólogo tem uma finalidade diferente daquela que encontramos em uma conversa cotidiana. Enquanto uma pessoa fala, o profissional acompanha como aquela experiência está sendo apresentada, percebe temas que reaparecem, faz perguntas, observa relações entre situações diferentes e pode chamar atenção para algo que surgiu durante o próprio encontro.
Na Gestalt-terapia, essa conversa também pode incluir aquilo que a pessoa percebe enquanto fala. Uma mudança na emoção, um desconforto no corpo, uma hesitação diante de determinado assunto ou a maneira como ela se relaciona com o psicólogo naquele momento podem ajudar a compreender melhor o que está acontecendo. Isso não significa procurar mensagens escondidas em cada gesto ou palavra. O interesse está em ampliar a percepção sobre uma experiência que, muitas vezes, é maior do que a explicação que conseguimos dar para ela.
O psicólogo também pode compartilhar percepções, fazer intervenções, propor experimentações e conversar sobre o próprio processo terapêutico. A sessão não precisa ser um monólogo diante de alguém em silêncio. Ao mesmo tempo, participar ativamente da terapia não significa ocupar o lugar de quem conhece a resposta certa para a vida da outra pessoa.
Por que não dizer logo o que a pessoa deve fazer?
Essa pergunta toca em algo importante sobre a psicoterapia. Um conselho sempre carrega a experiência, os valores e a perspectiva de quem aconselha. Quando dizemos “no seu lugar, eu faria isso”, existe uma parte da frase que merece atenção: eu faria. Mas é outra pessoa que continuará naquela relação, naquele trabalho, naquela família e que viverá as consequências da decisão.
Na terapia, podemos trabalhar para que a pessoa compreenda melhor aquilo que está vivendo e reconheça como participa das próprias escolhas. Isso também significa aceitar que nem sempre haverá uma solução imediata. Algumas decisões precisam amadurecer; algumas perguntas mudam conforme são exploradas; e, em certos momentos, compreender melhor um conflito é mais importante do que encerrá-lo rapidamente.
Essa forma de trabalhar é particularmente importante para mim na Gestalt-terapia. Quando alguém chega com uma dificuldade, procuro compreender como aquilo acontece na vida daquela pessoa: em quais situações aparece, como ela se sente, o que percebe, como se relaciona, quais necessidades estão presentes e de que maneira sua história e seu contexto participam dessa experiência. O trabalho vai sendo construído nesse encontro, e não a partir de uma resposta que eu já tenha antes de escutá-la.
O que pode acontecer, então, ao longo de uma terapia?
Com o tempo, coisas que pareciam óbvias podem ganhar outros sentidos. A pessoa pode começar a perceber maneiras de agir que se tornaram tão habituais que já passavam despercebidas, reconhecer necessidades que costumava deixar em segundo plano ou compreender melhor por que algumas situações a mobilizam tanto. Também pode descobrir que algo que considerava uma característica imutável de si aparece de maneiras diferentes dependendo da relação ou do contexto.
Nem toda sessão produzirá uma descoberta importante, e o processo não precisa avançar de maneira linear. Há encontros em que alguma coisa ganha muita clareza e outros em que uma questão continua aberta. Psicoterapia também envolve tempo para que determinadas experiências possam ser reconhecidas, compreendidas e, quando possível, vividas de outras maneiras.
Talvez seja por isso que explicar o que acontece em uma terapia seja mais difícil do que descrever aquilo que vemos de fora. Duas pessoas estão conversando, mas a conversa pode permitir que alguém se escute de uma maneira que ainda não conseguia.
E, nesse sentido, uma pergunta talvez seja mais interessante do que esperar um conselho: o que eu posso começar a perceber sobre a maneira como estou vivendo isso?
