Relações e vínculos · 27/08/2026

O que aprendi sendo psicólogo?

No Dia do Psicólogo, compartilho algumas reflexões sobre o que a prática clínica tem me ensinado sobre escuta, conhecimento, responsabilidade e as diferentes formas de viver.

Psicólogo Douglas Almeida usando beca e capelo de formatura, com o Pão de Açúcar ao fundo, no Rio de Janeiro.

Hoje, no Dia do Psicólogo, pensei que poderia escrever sobre a importância da profissão, sobre saúde mental ou sobre o papel da Psicologia na sociedade. Todos seriam assuntos pertinentes para a data. Mas, quando comecei a pensar no que gostaria de registrar aqui, percebi que estava mais interessado em outra coisa: no que esses anos trabalhando como psicólogo também me ensinaram.

A formação nos apresenta teorias, conceitos, técnicas e referências necessárias para começar a exercer a profissão. Depois, a clínica coloca pessoas diante de nós. E existe uma diferença importante entre estudar experiências humanas e encontrar alguém que está tentando contar a própria.

Uma pessoa pode chegar falando de ansiedade, outra de uma separação, de dificuldades no trabalho, de uma perda ou de uma relação familiar complicada. É claro que o conhecimento que acumulamos sobre esses assuntos importa e orienta nosso trabalho. Ao mesmo tempo, aprendi que conhecer um fenômeno não significa conhecer antecipadamente a experiência de quem o vive. Duas pessoas podem usar as mesmas palavras para falar de sofrimentos bastante diferentes. Talvez uma das coisas que a clínica tenha reforçado em mim seja justamente a importância de continuar curioso diante dessa diferença.

Saber Psicologia não é saber mais sobre a vida do outro

Existe uma expectativa compreensível de que o psicólogo tenha respostas. Afinal, quando procuramos um profissional, esperamos que seu conhecimento possa nos ajudar. E ele deve ajudar. Formação, estudo, supervisão, atualização e compromisso ético não são acessórios da profissão; fazem parte da responsabilidade que assumimos quando alguém confia seu cuidado a nós. O problema seria confundir esse conhecimento com uma espécie de autoridade sobre a vida de quem atendemos.

Na clínica, muitas vezes preciso perguntar antes de concluir e compreender melhor uma experiência antes de tentar explicá-la. Uma situação que parece simples quando contada rapidamente pode ganhar outros sentidos quando conhecemos as relações envolvidas, a história daquela pessoa, aquilo que ela deseja, o que teme e as condições concretas em que vive.

Essa maneira de compreender o trabalho também tem relação com a Gestalt-terapia, abordagem que orienta minha prática. Quando alguém chega com uma dificuldade, não me interessa apenas identificar a qual categoria aquele problema poderia pertencer. Quero compreender como ele acontece na vida daquela pessoa e o sentido que adquiriu dentro de sua experiência. Isso muda inclusive a forma como lido com perguntas muito comuns em terapia. Devo terminar essa relação? Preciso sair desse emprego? Conto isso para minha família? Estou insistindo em algo que já deveria ter deixado para trás?

Seria relativamente fácil responder algumas dessas perguntas a partir daquilo que eu próprio acredito. Mas a minha resposta diria muito sobre mim e não necessariamente ajudaria a outra pessoa a compreender o que está vivendo. Quem continuará naquela relação, naquele trabalho ou naquela família não sou eu. Meu trabalho pode ser muito mais útil quando ajuda a ampliar aquilo que está sendo percebido, inclusive para que uma escolha possa ser feita com maior consciência sobre o que ela envolve.

Isso não significa ficar em silêncio esperando que a pessoa encontre tudo sozinha. Psicoterapia é uma relação. Eu pergunto, compartilho percepções, faço intervenções e participo ativamente da construção daquele processo. O cuidado está em não confundir participação com conduzir a vida do outro.

A clínica também muda quem escuta

Há outra coisa que fui percebendo com o tempo. Trabalhar como psicólogo significa ter contato com formas de viver muito diferentes da minha. Escuto pessoas que construíram relações de maneiras que eu não construí, fizeram escolhas que talvez eu não fizesse, cresceram em contextos que não conheci e encontraram maneiras próprias de atravessar experiências que também nunca vivi.

Ser recebido nesses pedaços da vida de alguém exige responsabilidade, mas também produz aprendizado. Não no sentido de usar a história de uma pessoa como uma “lição de vida”, e sim porque conviver profissionalmente com tanta diferença torna cada vez mais difícil acreditar que exista uma maneira única de organizar uma vida, uma relação, uma família ou aquilo que cada um considera importante.

A experiência clínica também me ensinou a desconfiar um pouco das explicações rápidas. Às vezes, quando conhecemos apenas uma parte de uma história, é muito fácil imaginar o que alguém deveria ter feito. Conforme nos aproximamos da experiência, aparecem afetos, vínculos, condições materiais, medos, expectativas e contradições que tornam aquela situação muito mais complexa do que parecia inicialmente. Talvez por isso, depois de alguns anos atendendo, eu não sinta que conheço as pessoas mais rapidamente. Em muitos sentidos, aconteceu o contrário. Aprendi a ter mais cuidado antes de achar que compreendi alguém.

Isso não diminui a importância do conhecimento psicológico. Para mim, torna esse conhecimento mais responsável. Teoria e experiência clínica me ajudam a formular perguntas, perceber relações e compreender fenômenos que poderiam passar despercebidos. Mas uma teoria precisa continuar sendo uma ferramenta para compreender uma pessoa, e não uma forma de fazer aquela pessoa caber em uma explicação.

Continuar aprendendo também faz parte de ser psicólogo

Quando recebi meu diploma, havia terminado uma etapa importante da minha formação. Hoje entendo com muito mais clareza que aquilo não significava estar pronto. Continuo estudando, aprofundando minha formação em Gestalt-terapia, revendo conceitos e encontrando perguntas que me obrigam a voltar aos livros. A própria clínica faz isso: há experiências que mostram os limites do que sabemos e nos lembram de que trabalhar com pessoas exige atualização constante.

Por isso, neste Dia do Psicólogo, quando penso na profissão que escolhi, não penso apenas naquilo que aprendi para poder exercê-la. Penso também em tudo aquilo que o exercício da Psicologia continua me ensinando. Aprendi que escutar é mais difícil do que parece. Que compreender alguém leva tempo. Que nem toda pergunta precisa ser respondida imediatamente. Que conhecimento técnico é indispensável, mas não substitui interesse genuíno pela experiência de quem está diante de nós. E que trabalhar todos os dias com histórias tão diferentes pode ampliar profundamente a nossa compreensão sobre as muitas formas possíveis de ser e estar no mundo.

Depois de alguns anos de clínica, continuo estudando Psicologia para compreender melhor as pessoas. Mas talvez uma parte importante do que aprendi sendo psicólogo seja justamente reconhecer que nenhuma quantidade de estudo deveria me fazer acreditar que já sei quem é alguém antes de escutá-lo.

Douglas Almeida, psicólogo Gestalt-terapeuta

Sobre o autor

Douglas Almeida

Psicólogo Gestalt-terapeuta, CRP 05/61463. Realiza atendimento psicológico online para adultos, em português e inglês, com uma escuta atenta às relações, ao contexto e à singularidade de cada pessoa.

Conheça minha trajetória
Entrar em contato