Quando alguém procura um psicólogo, é comum prestar atenção à formação, à abordagem utilizada, à experiência profissional e aos temas com os quais aquele profissional costuma trabalhar. São informações importantes e ajudam a entender quem está sendo escolhido para acompanhar um processo que pode envolver aspectos muito particulares da vida. Mas existe uma parte dessa escolha que dificilmente cabe em um currículo ou em uma apresentação profissional: como é estar em uma conversa com aquela pessoa?
Isso importa porque a psicoterapia não acontece apenas a partir do conhecimento que o psicólogo possui. Ela acontece também em uma relação. Ao longo das sessões, duas pessoas vão construindo uma forma particular de conversar, fazer perguntas, lidar com silêncios, discordar, perceber dificuldades e se aproximar de assuntos que nem sempre são fáceis de colocar em palavras. Por isso, encontrar um psicólogo com boa formação é fundamental, mas isso não significa que qualquer profissional necessariamente funcionará da mesma maneira para qualquer pessoa.
Confiança não precisa existir na primeira sessão
Pode parecer estranho chegar diante de alguém que você acabou de conhecer e começar a falar sobre situações que, muitas vezes, nem pessoas próximas conhecem. Ainda assim, existe uma expectativa de que quem procura terapia deveria conseguir se abrir desde o primeiro encontro. Nem sempre acontece assim.
Há quem fale bastante logo na primeira sessão. Outras pessoas precisam de tempo para observar como o psicólogo reage ao que dizem, como conduz a conversa e como lida com determinados assuntos. Algumas começam por questões mais fáceis e só depois se aproximam daquilo que realmente as preocupa.
A confiança pode ser construída justamente nessa experiência repetida de perceber que existe espaço para falar sem precisar organizar tudo previamente, produzir a resposta certa ou corresponder a uma expectativa sobre como alguém “deveria” fazer terapia.
Também não significa que será sempre confortável. Uma relação terapêutica em que existe confiança pode incluir perguntas difíceis, incômodos, diferenças de percepção e momentos em que algo dito pelo psicólogo não é recebido da maneira esperada.
O que acontece entre terapeuta e paciente também pode ser conversado
Talvez uma pessoa ache que o psicólogo ficou distante em determinada sessão. Outra pode sentir vergonha de contar algo porque imagina que será julgada. Pode haver irritação com uma pergunta, dificuldade de discordar ou receio de decepcionar o terapeuta. Essas experiências não precisam ficar do lado de fora da terapia.
Na Gestalt-terapia, aquilo que acontece na relação entre terapeuta e paciente pode ajudar a compreender a própria experiência. Não porque a relação terapêutica seja uma reprodução exata das outras relações da vida, mas porque ali também surgem formas de se aproximar, se proteger, confiar, evitar conflitos, pedir, recusar, sentir vergonha ou tentar corresponder ao que imaginamos que o outro espera de nós.
Se alguém percebe, por exemplo, que concorda com o terapeuta mesmo quando pensa diferente, pode ser importante compreender o que torna aquela discordância difícil. Se existe medo de ser julgado ao falar sobre determinado assunto, esse receio também pode ser acolhido e explorado antes mesmo que a pessoa consiga falar sobre aquilo que pretendia contar. A relação deixa, então, de ser apenas o lugar onde a terapia acontece. Ela também pode oferecer elementos para compreender como aquela pessoa se relaciona consigo, com o outro e com aquilo que vive.
O terapeuta também participa desse encontro
Dizer que existe uma relação não significa apagar a diferença de papéis. O psicólogo continua sendo o profissional responsável pela condução do trabalho e existem limites éticos claros para essa relação. A sessão não é uma conversa entre amigos, e o objetivo não é que terapeuta e paciente ocupem lugares iguais. Isso também não transforma o psicólogo em uma figura neutra, que apenas observa e registra o que é dito.
Ele escuta, pergunta, percebe, propõe, compartilha algumas observações e responde ao que acontece durante o encontro. Na Gestalt-terapia, essa presença faz parte do trabalho. O terapeuta não precisa fingir que não existe para que o paciente consiga olhar para si.
Talvez seja justamente por isso que a sensação de encontrar um profissional com quem seja possível construir uma boa relação tenha tanta importância. Não é necessário sentir identificação imediata, gostar de tudo que o terapeuta diz ou sair confortável de todas as sessões. O que precisa existir é a possibilidade de construir um espaço em que inclusive aquilo que não funciona bem possa ser colocado em palavras.
Ao longo de um processo terapêutico, é possível que uma das experiências mais importantes não esteja apenas no que conseguimos contar sobre nossas relações fora dali. Pode estar também na oportunidade de experimentar, dentro daquela relação, outras maneiras de estar com alguém.
