10/09/2026

Você sabe reconhecer quando não está bem?

Nem sempre o sofrimento interrompe a rotina. Às vezes, continuamos funcionando enquanto pequenas mudanças no corpo, no humor, nas relações e no cotidiano mostram que alguma coisa precisa de atenção.

Mulher negra sentada junto à janela de um trem à noite, olhando para cima enquanto seu reflexo aparece no vidro.

Nem sempre percebemos imediatamente quando alguma coisa não vai bem. Há dias em que isso é evidente: acordamos indispostos, alguma situação nos abala ou sabemos exatamente o que aconteceu para que estejamos tristes, irritados ou preocupados. Em outros momentos, a mudança acontece aos poucos e vai se misturando à rotina. Continuamos trabalhando, conversando, resolvendo problemas e cumprindo compromissos, mas algumas coisas começam a exigir mais esforço do que antes.

O sono pode mudar. A paciência diminui. Encontrar pessoas parece cansativo. Atividades que costumavam ser prazerosas perdem um pouco do interesse. Podemos ficar mais irritados, distraídos ou com dificuldade de descansar mesmo quando finalmente temos tempo. Nada disso, isoladamente, significa necessariamente que exista um problema. A vida tem períodos mais difíceis, e nosso estado também varia de acordo com aquilo que estamos vivendo.

Talvez a questão mais importante não seja procurar uma lista de sinais que diga quando devemos nos preocupar, mas perceber quando alguma coisa em nossa maneira habitual de viver começa a mudar.

Nem todo sofrimento chega com um nome

É comum imaginarmos que reconhecer o próprio sofrimento significa conseguir dizer exatamente o que estamos sentindo. Como se fosse necessário chegar a uma conclusão: “estou ansioso”, “estou triste”, “estou sobrecarregado”. Mas nossa experiência nem sempre se apresenta de maneira tão organizada.

Às vezes, o que percebemos primeiro é uma vontade maior de ficar sozinho. Em outras situações, começamos a responder com impaciência a coisas que normalmente não nos incomodariam. Podemos nos ocupar mais do que o habitual, passar horas no celular, ter dificuldade para nos concentrar ou simplesmente sentir que os dias estão mais pesados sem conseguir explicar muito bem por quê.

Não saber dar um nome imediatamente ao que está acontecendo não torna essa experiência menos importante. Antes de conseguirmos explicá-la, alguma coisa já pode estar sendo percebida na maneira como nos relacionamos com o trabalho, com outras pessoas, com nosso corpo e com aquilo que fazemos todos os dias.

Continuar funcionando não significa necessariamente estar bem

Talvez uma das razões pelas quais seja difícil reconhecer alguns momentos de sofrimento esteja na ideia de que não estar bem deveria nos impedir de seguir a vida. Nem sempre é assim.

Podemos entregar o que precisa ser entregue, responder mensagens, cuidar da casa, encontrar amigos e até nos divertir em determinados momentos enquanto atravessamos uma experiência difícil. Sofrimento não significa necessariamente incapacidade, assim como produtividade não é uma medida confiável de bem-estar.

Quando usamos apenas a capacidade de continuar funcionando como referência, corremos o risco de prestar atenção em nós mesmos somente quando alguma coisa já se tornou difícil demais para ignorar.

Isso não significa que precisamos observar cada mudança de humor como um problema. Existe uma diferença importante entre prestar atenção à própria experiência e viver em constante vigilância sobre ela. Reconhecer como estamos envolve também aceitar que teremos dias ruins, períodos cansativos, tristeza, raiva, medo e frustração sem que cada uma dessas experiências precise ser imediatamente corrigida.

Prestar atenção também é uma forma de cuidado

Na Gestalt-terapia, ampliar a consciência sobre aquilo que estamos vivendo não significa encontrar rapidamente uma explicação para tudo. Muitas vezes, começa por perceber: como tenho passado meus dias? O que mudou recentemente? Como meu corpo tem respondido? Do que tenho me aproximado e do que tenho me afastado? O que tem exigido mais de mim?

Essas perguntas não funcionam como um teste. Elas ajudam a olhar para uma experiência que, no ritmo da rotina, pode estar passando despercebida.

Também podemos precisar de outras pessoas para perceber certas mudanças. Um amigo nota que estamos mais distantes. Alguém da família pergunta por que parecemos tão cansados. Uma pessoa próxima percebe uma irritação que nós mesmos ainda não tínhamos reconhecido. Escutar essas observações não significa que o outro saiba melhor do que nós o que estamos vivendo, mas pode oferecer uma perspectiva que ainda não conseguimos ter.

Reconhecer que não estamos bem também não exige saber imediatamente o que fazer a respeito. Em alguns momentos, descansar ou conversar com alguém pode ser suficiente. Em outros, talvez seja necessário rever alguma situação que está nos fazendo mal ou procurar ajuda profissional.

Antes de qualquer resposta, porém, existe algo bastante simples e nem sempre fácil: conseguir perceber que alguma coisa em nós está pedindo atenção.

Douglas Almeida, psicólogo Gestalt-terapeuta

Sobre o autor

Douglas Almeida

Psicólogo Gestalt-terapeuta, CRP 05/61463. Realiza atendimento psicológico online para adultos, em português e inglês, com uma escuta atenta às relações, ao contexto e à singularidade de cada pessoa.

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