Há pessoas que se acostumaram a resolver. Quando alguma coisa dá errado, procuram uma saída. Quando surge um problema, organizam o que precisa ser feito. Se estão passando por um momento difícil, tentam primeiro entender, administrar e seguir em frente antes de contar para alguém.
Isso pode ser uma qualidade importante. Conseguir lidar com as próprias dificuldades, tomar decisões e encontrar recursos para atravessar situações complicadas faz parte da autonomia. O problema é que, às vezes, aquilo que começou como uma capacidade vai se tornando uma obrigação: já não é apenas “eu consigo resolver”, mas “eu preciso conseguir resolver sozinho”.
A diferença pode parecer pequena, mas muda bastante a experiência.
Quando precisar do outro se torna desconfortável
Nem sempre é fácil perceber que estamos evitando pedir ajuda. Às vezes, continuamos funcionando normalmente. Trabalhamos, resolvemos pendências, cuidamos de outras pessoas e cumprimos aquilo que esperam de nós. O cansaço existe, mas vamos administrando. Quando alguém pergunta se precisamos de alguma coisa, respondemos quase automaticamente que está tudo bem.
Pode ser que pedir ajuda pareça trabalhoso. Talvez seja difícil explicar o que está acontecendo ou exista a sensação de que ninguém poderia fazer muita coisa. Para algumas pessoas, depender de alguém produz incômodo; para outras, surge o medo de incomodar, parecer frágil ou se tornar um peso. Também existem aquelas que conseguem oferecer apoio com facilidade, mas se sentem desconfortáveis quando precisam ocupar o lugar de quem recebe.
Essas formas de lidar com as dificuldades não aparecem do nada. Nossa maneira de recorrer aos outros também é construída nas relações que tivemos. Quem aprendeu que precisava se virar cedo, teve suas necessidades pouco reconhecidas ou viveu situações em que pedir ajuda não produzia o apoio esperado pode ter encontrado na autossuficiência uma forma importante de seguir adiante.
Em determinados momentos da vida, isso pode ter sido necessário. A questão é perceber se continua sendo necessário em todos eles.
Dar conta também pode esconder o próprio limite
Quando estamos acostumados a continuar funcionando, é possível perceber o limite apenas quando já o ultrapassamos. O corpo começa a reclamar, a irritação aumenta, atividades simples parecem exigir mais esforço e aquilo que antes conseguíamos organizar começa a se acumular. Mesmo assim, podemos interpretar tudo isso apenas como um sinal de que precisamos nos esforçar um pouco mais.
Existe uma diferença entre atravessar um período difícil usando os recursos que temos e viver como se precisar de apoio significasse que alguma coisa deu errado conosco. Ninguém é completamente independente. Nossa vida é construída em relações: recorremos a outras pessoas para aprender, trabalhar, cuidar, compartilhar responsabilidades, tomar decisões e atravessar momentos difíceis.
Reconhecer isso não diminui a autonomia. Pelo contrário, poder identificar quando conseguimos seguir com nossos próprios recursos e quando precisamos procurar apoio amplia as possibilidades que temos diante de uma situação.
Na Gestalt-terapia, olhar para uma experiência como essa não significa estabelecer que uma pessoa deveria pedir mais ajuda. Interessa compreender como ela aprendeu a lidar com suas necessidades, que apoios consegue reconhecer ao seu redor, em quais relações se sente confortável para recorrer ao outro e o que acontece quando percebe que não consegue resolver alguma coisa sozinha.
Às vezes, descobrir que precisamos de alguém é menos difícil do que permitir que esse alguém esteja conosco.
Nem tudo precisa ser sustentado da mesma maneira
Há momentos em que queremos resolver alguma coisa sozinhos e conseguimos. Em outros, conversar com alguém próximo já muda a forma como atravessamos uma dificuldade. Também existem situações em que o apoio de familiares e amigos não é suficiente e procurar ajuda profissional pode ser necessário.
O importante não é transformar pedir ajuda em uma nova obrigação. Seria estranho substituir “preciso dar conta sozinho” por “preciso aprender a pedir ajuda”. Talvez exista mais liberdade quando conseguimos reconhecer que diferentes situações pedem diferentes formas de apoio.
Se você está acostumado a ser a pessoa que resolve, organiza, ajuda e continua funcionando, pode ser difícil perceber quando também gostaria de ser cuidado. Isso não invalida tudo aquilo que você consegue fazer por conta própria. Apenas reconhece que autonomia e apoio não precisam ocupar lados opostos da nossa vida.
