Quando você procura um psicólogo, é comum encontrar algumas palavras acompanhando o nome do profissional: Gestalt-terapia, TCC, Psicanálise, entre muitas outras. Para quem está procurando terapia pela primeira vez, essas informações podem mais confundir do que ajudar. Afinal, o que muda na prática? A conversa será diferente? O psicólogo fará perguntas diferentes? Uma abordagem é indicada para determinadas questões e outra não?
Essas são perguntas legítimas. A abordagem faz parte da maneira como o psicólogo compreende aquilo que acontece em uma sessão e orienta seu trabalho, mas ela não é o único aspecto importante de uma psicoterapia. A formação do profissional, sua experiência, a relação construída entre psicólogo e paciente e a possibilidade de você se sentir à vontade naquele espaço também fazem diferença.
A Psicologia reúne diversas abordagens e formas de compreender e conduzir a psicoterapia. Seria impossível apresentar todas elas em um único texto e, por isso, escolhi falar aqui de três bastante conhecidas: Gestalt-terapia, Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Psicanálise. Isso não significa que sejam as únicas possibilidades, mas elas ajudam a entender por que profissionais diferentes podem olhar para uma mesma questão por caminhos distintos.
A abordagem faz parte da maneira como o psicólogo compreende aquilo que acontece em uma sessão e orienta seu trabalho, mas ela não é o único aspecto importante de uma psicoterapia. A formação do profissional, sua experiência, a relação construída entre psicólogo e paciente e a possibilidade de você se sentir à vontade naquele espaço também fazem diferença.
A proposta deste texto, portanto, não é descobrir qual dessas abordagens é melhor, mas entender algumas diferenças entre elas e o que isso pode significar, na prática, para quem está procurando terapia.
O que muda quando muda a abordagem?
Imagine que alguém procure terapia porque está tendo dificuldade para se posicionar nas relações. Ela percebe que aceita situações que gostaria de recusar, evita conflitos e frequentemente concorda com os outros mesmo quando pensa diferente. Depois, fica incomodada consigo mesma e não entende por que continua fazendo isso.
Esse mesmo relato pode ser trabalhado por profissionais de diferentes abordagens. O que muda é a maneira de olhar para essa experiência, as perguntas que ganham importância e os caminhos utilizados durante o processo terapêutico. É aí que conhecer um pouco sobre cada abordagem pode ajudar.
Como funciona a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)?
A Terapia Cognitivo-Comportamental costuma observar a relação entre aquilo que pensamos, sentimos e fazemos. Na terapia, psicólogo e paciente podem identificar pensamentos e comportamentos que aparecem diante de determinadas situações e compreender como eles participam da dificuldade que está sendo vivida.
Voltando ao nosso exemplo, uma pessoa que não consegue se posicionar poderia começar a perceber pensamentos que aparecem quando precisa contrariar alguém: “a pessoa vai ficar chateada comigo”, “vou criar um problema”, “é melhor deixar para lá”. O trabalho pode envolver questionar algumas dessas interpretações, experimentar outras maneiras de lidar com as situações e desenvolver recursos para enfrentar dificuldades do cotidiano.
A TCC também é conhecida por utilizar técnicas e estratégias de forma estruturada. Isso não significa que todas as sessões sejam iguais ou que exista uma receita pronta para cada problema. O trabalho é construído a partir das necessidades de cada pessoa e dos objetivos definidos para a terapia.
E a Psicanálise?
A Psicanálise chama atenção para aspectos da nossa experiência que nem sempre conhecemos ou percebemos conscientemente. Experiências da nossa história, conflitos, desejos e formas de nos relacionarmos podem continuar participando da vida atual mesmo quando não conseguimos reconhecer imediatamente essa influência.
Na terapia, a fala ocupa um lugar importante. Ao falar livremente sobre acontecimentos, lembranças, relações, sonhos ou sobre aquilo que surge durante uma sessão, a pessoa pode começar a perceber sentidos, conflitos e repetições que antes não estavam tão claros.
No exemplo de alguém que encontra dificuldade para se posicionar, poderia surgir a investigação sobre como determinadas relações foram construídas ao longo de sua história, o que significa desagradar alguém, quais conflitos aparecem nesse movimento e por que certas formas de se relacionar continuam se repetindo. Isso não significa que a Psicanálise fale apenas sobre infância ou passado. A história interessa porque também participa da maneira como uma pessoa vive, deseja e se relaciona no presente.
E como a Gestalt-terapia olha para essa experiência?
A Gestalt-terapia procura compreender como a pessoa está vivendo aquilo que a trouxe à terapia. Isso significa olhar para pensamentos e sentimentos, mas também para as relações, o corpo, a história, as escolhas, as necessidades e o contexto em que determinada experiência acontece. A pessoa não é reduzida ao problema que apresenta.
No nosso exemplo, não bastaria concluir que alguém “não sabe dizer não”. Seria importante compreender como essa dificuldade acontece: com quem é mais difícil se posicionar, o que acontece quando essa pessoa pensa em discordar, o que sente, o que percebe no próprio corpo, o que teme que aconteça na relação e se existem situações em que consegue agir de outra maneira. Essas diferenças ajudam a compreender melhor a experiência daquela pessoa.
A história também pode aparecer. Uma experiência do passado não deixa de importar para a Gestalt-terapia; interessa perceber como essa história continua presente na maneira como a pessoa vive hoje. Ao longo das sessões, o psicólogo pode fazer perguntas, compartilhar algo que percebe durante a conversa ou convidar a pessoa a prestar atenção a aspectos da própria experiência que costumam passar despercebidos.
Também não existe uma sequência de passos que precise ser aplicada igualmente a todas as pessoas. Duas pessoas podem chegar dizendo “eu não consigo dizer não” e estarem vivendo experiências bastante diferentes. É justamente essa singularidade que interessa ao trabalho.
Então, qual abordagem devo escolher?
Conhecer a abordagem de um psicólogo pode ajudar você a imaginar como aquele profissional trabalha, mas dificilmente uma descrição na internet será suficiente para decidir se uma terapia funcionará bem para você. Você pode se identificar mais com uma proposta que trabalhe de maneira estruturada com pensamentos e comportamentos, pode se interessar por um processo que explore conflitos e aspectos menos conscientes da sua experiência ou pode encontrar sentido em uma terapia interessada em compreender como você vive, se relaciona e constrói sua experiência no encontro com o mundo.
Também é possível começar uma terapia sem saber exatamente qual dessas possibilidades combina mais com você. A relação com o profissional importa. Poder conversar, fazer perguntas, compreender minimamente como ele trabalha e perceber como você se sente naquele espaço também fazem parte dessa escolha.
Por que escolhi trabalhar com a Gestalt-terapia?
Como psicólogo, minha prática é orientada pela Gestalt-terapia e, por isso, este site e os textos que você encontra aqui inevitavelmente partem desse lugar. O que me interessa nessa abordagem é a possibilidade de encontrar uma pessoa sem reduzi-la ao diagnóstico, ao sintoma ou à dificuldade que a levou até o consultório.
Alguém pode chegar falando sobre ansiedade, uma separação, dificuldades no trabalho, conflitos familiares, solidão ou simplesmente dizendo: “eu não sei muito bem o que está acontecendo comigo”. A terapia pode começar justamente daí, procurando compreender como aquela experiência acontece, em quais relações ela aparece, o que a pessoa percebe ou deixa de perceber sobre si e quais possibilidades começam a surgir quando aquilo que parecia automático passa a ser visto com mais clareza.
É uma forma de fazer psicoterapia que me interessa justamente porque mantém uma pergunta aberta durante o processo:
Como você está vivendo aquilo que está vivendo?
Não é uma pergunta para a qual o psicólogo tenha uma resposta pronta. É uma pergunta que pode começar a ser respondida no encontro entre duas pessoas e, para mim, é justamente aí que a psicoterapia começa.
Referências
BECK, Judith S. Terapia cognitiva: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 1997.
FREUD, Sigmund. Cinco lições de psicanálise. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XI: Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos (1910 [1909]). Rio de Janeiro: Imago.
PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. New York: Julian Press, 1951.
