Quando alguém decide procurar um psicólogo, pode encontrar uma quantidade de abordagens que nem sempre são fáceis de entender. Psicanálise, Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Gestalt-terapia e outras linhas aparecem nas apresentações dos profissionais, mas conhecer esses nomes ainda diz pouco sobre como será uma sessão ou sobre a maneira como cada psicólogo poderá compreender as questões que você levar para a terapia.
Se você chegou até aqui procurando saber o que é Gestalt-terapia, podemos começar por uma ideia relativamente simples: essa abordagem procura compreender a pessoa a partir da maneira como ela vive e se relaciona com o mundo. Isso envolve sentimentos e pensamentos, mas também o corpo, as relações, a história de vida, as escolhas, as necessidades e o contexto em que cada experiência acontece.
O que é Gestalt-terapia?
A Gestalt-terapia é uma abordagem de psicoterapia desenvolvida em meados do século XX, principalmente a partir do trabalho de Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman. Um marco importante para sua consolidação aconteceu em 1951, com a publicação do livro Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality, assinado por Fritz Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman.

Sua construção reuniu contribuições de diferentes áreas do pensamento. Entre elas estão a Psicanálise, com a qual seus fundadores também estabeleceram um diálogo crítico, a Psicologia da Gestalt, a Fenomenologia, o pensamento existencial e a teoria de campo.
Não é preciso conhecer nenhuma dessas teorias para fazer Gestalt-terapia. Elas fazem parte das bases que ajudaram a construir uma forma de olhar para o ser humano considerando a pessoa e o mundo em que ela vive, em vez de tentar compreendê-la de maneira isolada.
Isso significa que aquilo que sentimos ou fazemos não é observado fora da nossa vida concreta. Uma dificuldade pode aparecer em determinadas relações e não em outras. Uma forma de agir que hoje causa incômodo pode ter feito sentido em outro momento. Nossas possibilidades também mudam de acordo com as condições que encontramos, com as relações que construímos e com os recursos que temos disponíveis.
Por isso, durante a terapia, entender o que uma pessoa sente é importante, mas outras perguntas também podem aparecer. Como isso acontece? Em quais situações? Há pessoas com quem isso acontece mais? O que ela percebe quando vive determinada situação? O que gostaria de fazer e não consegue? O que parece estar em jogo naquele momento?
Como a Gestalt-terapia funciona na prática?
Imagine que alguém chegue à terapia dizendo:
“Eu tenho muita dificuldade de dizer não.”
Conhecer a história dessa pessoa pode ser importante, mas o trabalho não precisa se limitar a procurar no passado uma explicação para essa dificuldade. Também podemos olhar com atenção para a maneira como ela acontece hoje.
Talvez dizer “não” seja especialmente difícil em algumas relações e bastante possível em outras. Pode existir o receio de decepcionar alguém, provocar um conflito ou ser visto de determinada maneira. Às vezes, a pessoa concorda com algo quase automaticamente e percebe somente depois que gostaria de ter recusado. Em outras situações, pode notar uma tensão no corpo enquanto tenta responder ou perceber que algumas relações parecem exigir dela uma disponibilidade que não aparece em outros lugares da vida.
Quando começamos a observar essas diferenças, “eu não sei dizer não” deixa de ser apenas uma característica atribuída a si mesmo. A pessoa pode começar a perceber melhor quando isso acontece, como acontece e o que está envolvido naquela forma de se relacionar.
Esse tipo de atenção à própria experiência é importante na Gestalt-terapia. Durante o processo terapêutico, buscamos compreender melhor como nos relacionamos com aquilo que sentimos, com nossas necessidades, com outras pessoas e com as situações que encontramos.
É nesse contexto que aparece uma expressão bastante conhecida da abordagem: o “aqui e agora”. Ela pode dar a impressão de que a Gestalt-terapia se preocupa somente com o presente ou deixa o passado de lado, mas não é isso que significa.
Nossa história participa da maneira como vivemos hoje. Experiências antigas podem continuar presentes na forma como construímos vínculos, fazemos escolhas ou reagimos a determinadas situações. Da mesma maneira, preocupações e expectativas sobre o futuro fazem parte do que sentimos no presente.
O passado, portanto, pode estar muito presente em uma sessão de Gestalt-terapia. Também interessa perceber como essa história continua aparecendo na vida da pessoa hoje.
Como é uma sessão de Gestalt-terapia?
Uma sessão de Gestalt-terapia não segue um roteiro que precise ser repetido a cada encontro. A conversa pode começar por algo que aconteceu naquela semana, uma relação, uma lembrança, uma decisão difícil ou mesmo por uma sensação que a pessoa ainda não consegue explicar muito bem.
Ao longo da conversa, o psicólogo pode fazer perguntas, chamar atenção para algo que percebeu ou convidar a pessoa a observar com mais cuidado algum aspecto do que está vivendo. Em determinadas situações, também podem ser utilizados experimentos terapêuticos, quando fizerem sentido para aquela pessoa e para o momento do processo.
Isso não significa que a terapia seja uma conversa sem direção. O trabalho acontece a partir das questões que levaram aquela pessoa à psicoterapia e do que vai sendo construído ao longo dos encontros. A diferença é que não existe a expectativa de aplicar a mesma sequência de técnicas a todas as pessoas.
Uma razão para isso é que a Gestalt-terapia considera a singularidade de cada experiência. Duas pessoas podem chegar à terapia dizendo exatamente “eu não consigo dizer não” e estarem falando de situações muito diferentes. Para compreender o que essa dificuldade representa, precisamos conhecer a pessoa que a vive, suas relações e as circunstâncias em que ela aparece.
Uma abordagem interessada em como você vive
Conhecer os conceitos da Gestalt-terapia ajuda a compreender suas bases, mas fazer psicoterapia é uma experiência diferente de estudar uma teoria.
Na prática, talvez uma forma mais simples de entender a abordagem seja pensar em uma pergunta que acompanha boa parte desse trabalho:
Como você está vivendo aquilo que está vivendo?
Essa pergunta não pressupõe que exista uma resposta escondida que o psicólogo precise descobrir. Ela abre espaço para observar uma experiência que, muitas vezes, já conhecemos muito bem por um ângulo diferente.
Aquilo que parecia apenas uma característica pessoal pode ganhar contexto. Uma reação que parecia sem sentido pode ser compreendida dentro de determinadas relações. Algo que fazemos quase automaticamente pode começar a ser percebido enquanto acontece.
A Gestalt-terapia parte da compreensão de que uma pessoa não pode ser reduzida à dificuldade que a levou à psicoterapia. Há uma história, relações, necessidades, possibilidades e um contexto que também fazem parte daquilo que está sendo vivido.
Quer entender como a Gestalt-terapia se diferencia de outras abordagens?
Se você está pesquisando psicoterapia, pode também estar tentando entender as diferenças entre Gestalt-terapia, TCC e Psicanálise.
Esse será o tema do próximo artigo do blog, no qual vou apresentar as principais diferenças entre essas abordagens em uma linguagem acessível, sem tentar estabelecer qual delas seria “melhor”.
